As aventuras de uma ex-calourinha inocente impressionada com as maravilhas de um mundo girando ao redor de falos.
Mas agora a calourice foi embora e, hoje, ela acha Mundo Falocêntrico um nome bem bizarro. Bem, eu nunca quis fazer um blog rosinha com coraçõezinhos pra textos delicadinhos e imbecizinhos, hehehehe.
O Mundo
Mariana N. A. L., ou DeLarge, deixo a cargo do leitor
30 de abril, há 21 anos.
Touro, ascendente Capricórnio, Lua Aquário e cuidado com minha Vênus em Gêmeos. É, eu sou fria e complicada pra cacete, heheheh
Publicidade e Propaganda na UFRJ, quase no fim.
Aspirante a redatora, trabalhando com programação visual.
Apaixonada por britrock e outras bandas novas de além da Inglaterra, por cinema alternativo (não intelectualóide, pelamordedeus) e por Dostoievski.
Querendo encontrar o Ivan Karamázov, o Raskolnikov, ou o Príncipe Míchkin na rua. Pode ser o Alex DeLarge também.
Doida por inteligência e beleza. Viciada numa boa conversa. Pouco me fodendo pros clichês dessas linhas.
Um pouco misteriosa e bem viadinha, o suficiente pra não querer mais completar isso aqui e pra querer um perfil minimalista. Gosto de ter gostinho de quero mais!
Carnaval
Blusa vermelha, Melissa preta de bico fino, lápis de olho, purpurina roxa em toda pele que a roupa não ocultava. Ana estava pronta. Era uma moça bonita nos seus 18 anos, apesar de seu cabelo sempre dizer a ela o contrário. Mas dessa vez, foda-se o cabelo! Era o último dia de carnaval, última oportunidade de Ana e ela não queria desperdiçar. Foi ao espelho para mais uma camada de lápis nos olhos e saiu, rumo a outra noite de praia e (argh!) micareta com seus primos e amigos. E, quem sabe... Ele.
Um caminho belo e cansativo pelas ruas de paralelepípedos da pequena cidade praiana, mas que parecia não abalar a confinça de Ana. Sempre tímida, ela agora se rebolava toda a cada carro que passava berrando "quer bolete?" ou "tô ficando atoladinha". E a praia ficava longe. Ana não queria manchar sua cara purpurinada com suor. Procurou esquecer a aparência... Tá, era impossível! Ia precisar da ajuda dela, ele ia se curar do efeito do chá de sumiço e Ana seria feliz para sempre durante aquela noite. Era só esperar.
Aos poucos o número de pessoas foi aumentando nas ruas. "Piranhas", mocréias, "salva-bofes", coelhinhas, havaianas, gente normal... Todos eufóricos. Quanto mais se aproximavam da praia, mais alto ficava o "Chiiiiiii-cleeeeeeee-teeeee", que ela tanto odiava. Certamente não tocaria nada de The Cure ou Franz Ferdinand em pleno carnaval na praia, Ana pensou... Foda-se! Até micareta ela dançaria, se preciso fosse. "Chiiiiiii-cleeeee-teeeee" tava enchendo o saco? Pois Ana começou a levantar as mãos e a bater palmas conforme a música (?) ordenava. Tudo estava lindo, micareta era linda, tudo tinha que ser lindo e alegre e Ana tinha que estar linda e alegre para ele...
Chegaram ao início da rua que dava na praia. Lotada. Ensurdecedora. Ana sentiu várias mãos masculinas puxando seu braço e seus cabelos agressivamente. Sentiu também vontade de vomitar ao se notar como mero objeto para aqueles homens. Onde ele tava???? Tá demorando muito! E por mais que olhasse por cima das infinitas cabeças na rua, não o reconhecia em nenhuma daquelas caras felizes ou bêbadas...
Passou a andar em trenzinho com seus primos e amigos para não se perder. Divertido. O cheiro do carnaval embalava o trenzinho e todos eles estavam felizes. Ana também, não poderia ser diferente. Ele estava demorando, mas... Apareceu! Lindo, loiro e sem camisa! Lindo, loiro e alegre! Lindo, loiro e com um Bob Esponja inflável nas mãos!
Ana também estava linda. Era raro ela acreditar nisso, mas naquela noite se achava a mulher mais linda do mundo e não se importava com o clichê. Até seu cabelo tinha resolvido ser legal com ela... Ele vinha vindo, na direção oposta ao trenzinho... Foi vindo, vindo, se aproximando cada vez mais... Alegre, cantando com seus amigos. Lindo, com os olhos azuis (seriam verdes?) brilhando... Ana já não se incomodava mesmo com o "Chiiiiiiii-cleeeeeeeee-teeeeee", tampouco com o os esbarrões na rua lotada, nem com o infame boneco do Bob Esponja. Ele estava lá... Vinha vindo, lindo.
E chegou. Parou. De frente para o primo que capitaneava o trenzinho. Ana era a terceira da fila. Viu seu primo e ele apertarem as mãos. Mexeu nervosamente nos cabelos e sorriu. Logo ele veria como ela estava bonita e feliz... Não... Ouviu ele murmurar algo como vou descer com os moleques, depois falo com vocês...
E ele se foi. Perdeu-se no meio das caras felizes e bêbadas... Caralho, ele não me viu! Como assim?! Ana não acreditava... Puta que o pariu, odeio essa merda de "Chiiiiii-cleeeee-teeee"! E meu cabelo tá horrendo!!! Eu tô muito gorda, essa roupa me deixou horrível! Não é possível que esse puto tenha esquecido aquela última vez...
Ana saiu de seu transe pelo abismo com o solavanco da multidão e prosseguiu no trenzinho até a praia. Só agora ela notou o quão nojento era aquele povo suado rebolando, se esfregando, encostando nela, fazendo ela sentir o fedor molhado dos seus corpos devassos e o bafo de suas caras cheias de álcool. Ana queria sair logo daquela rua lotada e chegar ao pedaço mais vazio da orla... Queria ser enterrada na areia e nunca mais sair de lá. Queria chorar... Porra nenhuma, queria rir. Rir do ridículo da sua situação, de alguma vez ter se achado especial... Tão especial que o coisa sequer me viu...
Gargalhou. Uma gargalhada que mais parecia o esgar de uma hiena. Só parou ao sentir o fofo da areia na sola de sua Melissa. Seus primos e amigos se sentaram. Ana não. Ficou de pé, olhando para o escuro, na tentativa de esconder seus olhos. O lápis tava borrado, com certeza, ela disse para si mesma. Surgiu um casal no escuro que Ana mirava. Filhos da puta, vão ficar de agarramento logo aqui?! Indecentes! Sentiu um calafrio ao ver a língua do homem no pescoço da mulher. Teve nova vontade de chorar ao imaginar que poderia estar sentindo o mesmo tremor nas pernas que acometia aquela mulher...
Virou a cara. Não adiantou. Novos casais se pegando, onde quer que ela fixasse o olhar. Abaixou a cabeça, era melhor dormir e sair daquele lugar, pelo menos em sonho. Era impossível... Agora era a tal da "Poeeeeeeeeeeeira" que gritava nos seus tímpanos... E Ana estava definitivamente destruída. Odiava o carnaval, odiava praia, odiava micareta, odiava ele, odiava o Bob Esponja dele... Se odiava.
Um gota fina caiu no seu braço. A baba de algum casal sem-vergonha, só podia ser. Outra gota. E mais outra, dessa vez mais grossa. E outras, outras e outras, até virarem uma saraivada de gotas grossas. Várias pernas encharcadas corriam para debaixo dos toldos das barracas de bebida. Ana não. Ficou onde estava, ignorando os gritos de vem-pra-cá-você-vai-ficar-gripada dos seus primos e amigos. E logo, logo, logo, tava ensopada.
Irreconhecível. Cabelos e roupas grudados na pele. O rosto molhado do preto do lápis que a água tirou dos olhos. Água que também lavou a pele purpurinada... A chuva levou tudo o que podia haver dele nela. Mas Ana estava bonita. Uma beleza triste, quebrada... Mas, ainda assim, bela.